Como surgiu o boxe amador?
Nos seus primeiros tempos, o boxe era praticado por profissionais ou
semi-profissionais e estava direcionado para apostas. Os apostadores
esperavam que os boxeadores dessem tudo de sí e usassem todos os recursos
possíveis para chegar à vitória. Antigamente, era exigido do
boxeador muito pluck (gíria do pugilismo e que denotava
coragem e a determinação de não desistir, mesmo em perigo e dificuldades)
e muito bottom (resistência, capacidade de aguentar castigo físico).
O uso de luvas, e mesmo de esquivas, era totalmente incompatível com esses
valores. As primeiras regras do profissionalismo (as de Broughton e as de Londres)
tinham como maior
preocupação a justiça na partilha das apostas e a proibição de golpes
faltosos que pudessem terminar prematuramente uma luta (uma aposta
frequente era na quantidade de rounds que duraria o combate).
Por sua vez, o boxe amador, exatamente por ser voltado para não profissionais,
sempre teve outras preocupações: menor exigência
de preparo físico, bem como menor grau de brutalidade. Em particular, sempre
exigiu o uso de luvas. Para examinarmos mais detalhadamente sua origem e
evolução, consideraremos duas grandes etapas:
- boxe amador como defesa pessoal (vai de 1750 a 1850,
aproximadamente) e
- boxe amador como esporte competitivo (de cerca de 1850 aos
dias atuais).
Boxe amador como defesa pessoal.
A mais antiga notícia confiável que temos da prática do boxe por amadores é
de 1747, quando Jack Broughton abriu uma academia de lutas nos limites
da Londres da época. A maioria de seus alunos eram membros
da aristocracia. Como dizia seu anúncio no jornal:
Mr. Broughton abriu uma academia em sua residência no
Haymarket para instruir a todos os que desejarem se iniciar
nos mistérios do boxe, tanto na teoria como na prática da
Nobre Arte Britânica: golpes, bloqueios, cross-buttock,
etc. Tudo isso será explicado e treinado. As pessoas de
qualidade e distinção que fizerem esses cursos serão
acolhidas e tratadas com o maior cuidado desde o ponto de
vista de seu temperamento e sua constituição física. Para
isso, serão usadas luvas que lhes protegerão de
inconvenientes como olho preto, queixo quebrado e nariz
sangrento.
(As luvas que usavam tinham um enchimento de dez onças de lâ de carneiro ou
crina de cavalo. Em comparação: no início do século XX, as luvas eram de cinco
onças, e as luvas dos atuais profissionais tem oito.)
O que pretendiam tais os alunos de Broughton? Inicialmente, aprender uma
técnica de defesa pessoal que lhes servisse na eventualidade de um
assalto em alguma rua escura, ou na eventualidade de um duelo, o que era
comum na época. Porém, logo virou
status se poder afirmar que se praticava boxe e nenhum gentleman que se
prezasse perdia a oportunidade de fazer aulas de boxe.
Boxe amador como esporte de
competição.
- A origem: nos meios universitários
Durante muitos séculos, a rivalidade entre as universidades inglêsas
se manifestava através de
competições esportivas anuais de canoagem, esgrima,
cricket etc. Lá por cerca de 1850, o boxe foi introduzido nessas disputas,
bem como em torneios entre os membros das
forças armadas britânicas. Nos primeiros tempos, essas lutas eram feitas com
luvas, mas sob as regras em vigor no profissionalismo: as Regras de Londres.
- As primeiras regras para amadores: Queensberry
Em 1865, John Chambers, líder da equipe de canoagem da
Universidade de Cambridge e também um apaixonado por lutas, escreveu um
conjunto de regras procurando tornar as lutas de boxe mais apropriadas para
os estudantes universitários. Objetivava uma menor exigência de preparo
físico e um menor grau de brutalidade, embora reconhecendo que o boxe é um
esporte duro. Assim, suas regras inovaram por proibirem sapatos com pregos,
por fixar a duração dos rounds (3 minutos), dar um minuto de descanso entre os
rounds, exigir o uso de luvas e instituir a contagem de 10
segundos para competidor caído. Ademais, consideravam
os boxeadores divididos em três categorias de peso: pesados, médios e leves.
Essas regras ficaram engavetadas até 1867, quando
Chambers fundou o Amateur Athletic Club, onde passou a organizar
um campeonato anual de boxe amador, que durou de 1867 até 1885, e no qual
competiam principalmente alunos das universidades de Oxford e Cambridge.
Mais importante de ser observado é que as regras escolhidas para esse
campeonato foram as mesmas que Chambers havia escrito em 1865. Para
dar um ar de respeitabilidade à suas regras e ao seu campeonato, ele
pediu que John Sholto Douglas, o oitavo Marquês de Queensberry e um
aficionado do boxe, se tornasse padrinho da sua iniciativa. Por isso, as
suas regras passaram a ser conhecidas como as Regras de Queensberry, e seu
campeonato passou a ser chamado de Campeonato Amador de Queensberry.
- A classe trabalhadora passa a participar
Naquela época, a classe trabalhadora se viu privada de suas principais
diversões nas tardes de sábado. Foram proibidas as lutas de animais (galos,
cachorros, ursos etc) e os populares enforcamentos públicos. Por outro
lado, os esportes praticados pelas classes rica e média eram inascessíveis
aos bolsos da classe pobre: canoagem, tênis, hipismo etc. Assim, rapidamente
a classe pobre se voltou para o recém inventado futebol e para o
tradicional boxe, na modalidade amador.
Isso fêz com que nos torneios organizados por Chambers,
depois das lutas oficiais entre os universitários, se passasse a incluir
lutas entre representantes do público. Essa popularização resultou em
frequentes tumultos e
forçou as autoridades universitárias proibirem a participação de alunos.
Com isso, o boxe amador entrou numa fase anárquica.
- As Regras da ABA
Como tentativa de reerguer o boxe amador, em 1880 foi fundada a Amateur
Boxing Association (ou ABA; não confunda com a AIBA ). Inicialmente, a ABA congregava 12
academias ou clubes de boxe. A partir de 1881, ela passou a promover o
ABA National Championships, o qual logo se tornou o
maior evento de boxe amador na Inglaterra.
Mediante medidas disciplinares, a ABA logo impôs respeito no boxe amador
o que fêz surgir uma sucessão de clubes e associações amadoras:
o Oxford University Amateur Boxing Club (1881), Army Boxing Association (1892),
Navy Boxing Association (1895),
Cambridge University Boxing and Fencing Club (1896), etc.
Como resultado, a partir de 1896, iniciou-se um tradicional torneio anual de
boxe entre alunos de Oxford e Cambridge, o qual continua até os dias de hoje.
Além de ser a maior responsável pela aceitacao definitiva do boxe amador,
a ABA teve o mérito de criar um conjunto de regras bem
mais adequadas ao amadorismo que as Regras de Queensberry. As Regras da ABA
tiveram aceitação geral e, com repetidos aperfeiçoamentos,
produziram as regras amadoras que hoje usamos internacionalmente.
As regras originais da ABA tinham 12 itens, mas destacaremos
apenas as
principais inovações em relação às de Queensberry:
- Cinco categorias de peso: galos, penas, leves, médios e pesados.
- Lutas de 3 rounds: os dois primeiros de 3 minutos e o terceiro de 4 minutos.
Dá-se um minuto de descanso nos intervalos.
- Um árbitro no ringue e dois jurados fora.
- No final de cada round, os jurados atribuem pontos aos lutadores:
no máximo 5 pontos nos dois rounds iniciais, e 7 pontos no terceiro.
Dois critários são usados na marcação dos pontos: ataque e defesa.
Se a luta for até o final do último round, a vitória será dada para
o boxeador que fizer mais pontos e tiver o estilo mais bonito.
- O árbitro tem o poder de terminar a luta se achar que um dos boxeadores
não tem condição.
- A internacionalização do boxe amador
Em 1888, a popularidade do boxe nos USA levou à criação
da Amateur Sporting Union (ASU), para
competições de boxe amador, não mais vinculado a universidades.
A partir de 1902, os USA iniciaram a enviar equipes amadoras para
participarem nos torneios da ABA. O primeiro torneio multi-nacional de
boxe amador ocorreu em 1911, em New York, e envolveu equipes dos USA,
Canadá e Grã Bretanha.
Lá por 1920, o boxe amador iniciou a se difundir por todo o mundo.
No Brasil, as primeiras associações tiveram nível municipal e estadual:
Comissão de Boxe do Rio de Janeiro ( 1925 ), Federação Carioca de Boxe (
1933 ), Federação Paulista de Pugilismo Amador ( 1936 ), Federação Gaúcha
de Pugilismo ( 1944 ), etc. A tentativa de uma organização a nível nacional
no Brasil iniciou com a Federação Brasileira de Pugilismo ( 1935 ),
congregando apenas as federações cariocas, paulistas e mineiras.
- O boxe olímpico e a AIBA
Os Jogos Olímpicos Modernos iniciaram em 1896, mas deixando o boxe de fora,
pois o consideraram incompatível com o espírito de fraternidade das
Olimpíadas. A terceira olimpíada
foi realizada em 1 904, nos USA, onde
o boxe já era o mais popular esporte de massas. Os estadunidenses
pressionaram o Comitê Olímpico Internacional para incluir o boxe, e o COI
acabou cedendo, mas com a condição de boxe só como demonstração e somente com
boxeadores dos USA. Foi somente
com os Jogos Olímpicos de 1908/Londres, que o boxe passou
a disputar as medalhas olímpicas.
Durante os Jogos Olímpicos/1920/Bélgica foi criada a primeira associação internacional
regulamentando o boxe amador. Era a Federação Internacional de Boxe Olímpico
(FIBO), que iniciou congregando onze países:
BEL, CAN, DEN, FRA, GBR, NED, NOR, RSA, SUI, SWE e USA.
A FIBO adotou integralmente as Regras da ABA.
A FIBO não soube se
afirmar moralmente e em 1946, sob pressão da ABA e da Federação Francêsa de
Boxe, foi dissolvida, cedendo lugar para uma nova associação: a
Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA). Essa iniciou congregando
24 países, ganhou respeitabilidade, é hoje a associação máxima do boxe
amador e tem cerca de 200 associados.
Referências:
- C. Peter Joy: The Strange and Terrible History of Varsity Boxing..
Publ. pelo Cambridge Univ. Boxing Club.
- ABAE: History of ABAE..
(Nota: em 1981 a ABA se tornou a ABAE-Amateur Boxing Association
of England).
- AIBA: Concise History of the AIBA..
Publ. AIBA, 2009.
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