Lutas de boxe históricas
Cribb x Molineaux, I e II (1810 e 1811).
Importância dessas lutas:
Considera-se que elas marcam
o apogeu do boxe inglês sem luvas. Tiveram enorme
repercussão na época pois que foi a primeira
vêz que um estrangeiro desafiava um inglês pelo título de campeão e, para
aflição dos ingleses, tratava-se de um desafiante negro.
Para
se ter uma idéia dessa repercussão, basta dizermos que a
primeira luta ocorreu em dezembro de 1810, ao ar livre de um dia de
inverno terrivelmente frio e chuvoso; apesar disso, um público de mais de
20 000 pessoas compareceu. Entre elas, estava o famoso pintor Théodore
Gericault que imortalizou a luta no quadro acima.
Também é importante se destacar que ambas as lutas
envolveram uso decisivo de trapaças por parte dos ingleses.
Quem eram os boxeadores?
-- Tom Cribb foi campeão inglês por longos treze anos,
entre 1808 e 1821. Figura entre os boxeadores mais estimados pelos
ingleses, pois achavam que com ele as qualidades maiores do boxe,
"pluck and bottom", tinham atingido a plenitude.
( Pluck era a palavra que na gíria do pugilismo antigo denotava coragem e
determinação de não desistir, mesmo em perigo e dificuldades. Bottom denotava
resistência, capacidade de aguentar castigo físico. )
-- Molineaux ( pronuncia-se: molinô ) era um ex-escravo americano.
Tinha vindo dos USA decidido a se tornar o campeão inglês de boxe.
Chegou na Inglaterra em 1809 e, depois de vencer dois ingleses, desafiou Cribb.
Descrição da primeira luta:
Molineaux claramente era
quem batia mais forte e no segundo round conseguiu o primeiro sangramento.
Cribb, contudo, não se abalava e insistia com socos no
corpo. Afinal, no nono round, Molineaux acertou um soco na garganta do inglês
que o fêz desmaiar. Nos trinta segundos de intervalo, o segundo de
Cribb não conseguiu reavivá-lo e o árbitro "Gentleman" John Jackson por três
vezes comandou Cribb ao scratch. Fosse essa uma luta normal, estaria decretada
a derrota do inglês.
Mas, essa não era uma luta normal ! O orgulho britânico
estava em jogo e, então, o desesperado segundo de Cribb atinou de acusar
Molineaux de estar escondendo pedras na mão e pediu que os umpires fossem
verificar. Na confusão, passaram-se quase dois minutos de paralização que
deixaram Molineaux quase congelado enquanto uns goles de conhaque surtiam
efeito, reavivando Cribb.
Reiniciada a luta, gradativamente começou a prevalecer a determinação e
resistência de Gribb, ajudadas por mais golpes sujos, como uma mordida no
polegar de Molineaux. Afinal, no round 38, exausto e congelado, o gigante negro
desabou no ringue, mal conseguiu balbuciar "mim não pode mais lutar" e
desmaiou.
Descrição da segunda luta:
Após esta luta, Cribb tentou se aposentar,
mas poucos meses depois Molineaux
voltou a derrotar outro inglês e fazer novo desafio ao campeão. Por pressão
popular, Cribb teve de aceitá-lo. Desta vez se preparou melhor, inaugurando o
costume de se isolar num "training camp" ( campo de treinamento ) onde, sob
orientação de um exigente treinador, passava os dias fazendo pesados exercícios
físicos e lutas com sparrings, e era submetido a uma dieta rigorosa.
Este segundo combate foi realizado num não tão frio dia de setembro
de 1811. Por outro lado, desta vez a "patriotada" inglesa foi mais esperta:
sabedores que Molineaux era um grande amante de comida e bebida, no dia da luta
o empanturraram com uma galinha, uma torta de maçã e meio galão de cerveja.
Quando Molineaux subiu ao ringue estava mais para uma sesta do que luta, e do
outro lado saltitava um Cribb em plena forma, pesando apenas 85 Kg em vez dos
102 Kg de antes de seu training camp. O resultado foi o esperado, o inglês
terminou a pouca resistência que restara em Molineaux com golpes na cintura e
então, no nono round, lhe quebrou o queixo com um direto e emendou um
fortíssimo swing de esquerda que o derrubou. O forte negro não conseguiu chegar
ao scratch nos 30 segundos regulamentares, mas Cribb esnobou permitindo-o
continuar a luta. Essa passou a ser uma sessão de castigo que, para delírio dos
15 000 espectadores, Cribb terminou só dois rounds depois.
Referências:
- Nat Fleischer: A Pictorial History of Boxing.
Secaucus, NJ: The Citadel Press, 1959.
- Bob Mee: Bare Fists.
NY: Overlock Press, 2001.
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